ILHÉUS: MERENDA VIROU CASO DE POLÍCIA FEDERAL; GESTÃO VALDERICO JR TENTA CHAMAR DE POLÍTICA O QUE JÁ PASSOU PELA PF, CGU, MP E JUSTIÇA
Contrato emergencial de cerca de R$ 15,5 milhões é alvo da Operação Merenda Digna; PF aponta suspeita de direcionamento, conluio entre empresas e sobrepreço superior a R$ 1,7 milhão

A comida das crianças de Ilhéus virou caso de Polícia Federal.
E não adianta tentar diminuir a gravidade dos fatos com nota pública, discurso ensaiado ou acusação genérica de “cunho político”. Quando a Polícia Federal entra, quando a CGU entra, quando o Ministério Público se manifesta e quando a Justiça autoriza busca e apreensão, o problema deixa de ser mera disputa de narrativa. Passa a ser caso institucional, grave, documentado e que precisa ser explicado à população.
Nesta quinta-feira, 21 de maio, a Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União, deflagrou a Operação Merenda Digna para investigar possíveis irregularidades no uso de recursos destinados à alimentação de estudantes das escolas públicas de Ilhéus. Ao todo, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em órgãos públicos, endereços de servidores, empresários e sedes de empresas investigadas, nas cidades de Ilhéus, Itagimirim, Camaçari e Lauro de Freitas. (Serviços e Informações do Brasil)
O centro da investigação é uma contratação emergencial para fornecimento de gêneros alimentícios destinados à merenda escolar, no valor aproximado de R$ 15,5 milhões. Segundo a própria Polícia Federal, as apurações apontam suspeitas de direcionamento da contratação, conluio entre empresas participantes e sobrepreço estimado em mais de R$ 1,7 milhão. (Serviços e Informações do Brasil)
Mas há um detalhe que revolta ainda mais: a PF afirma que diversos itens da merenda foram contratados pelo município por valores superiores aos praticados no varejo, embora compras em grande escala normalmente devam sair mais baratas. Em outras palavras: segundo a investigação, a Prefeitura compraria em volume, mas pagaria mais caro do que o cidadão comum pagaria no mercado. (Serviços e Informações do Brasil)
É neste ponto que a pergunta deixa de ser apenas técnica e passa a ser moral: se havia contrato milionário, por que pais e responsáveis denunciaram falta de merenda nas escolas? Se a alimentação escolar era tratada como prioridade absoluta, por que surgiram relatos de alunos liberados mais cedo justamente por ausência de alimentação?
Reportagem do Ilhéus Eventos registrou denúncias encaminhadas por pais e responsáveis sobre falta de merenda e liberação antecipada de estudantes em unidades da rede municipal. Segundo a publicação, uma mãe relatou que alunos do Colégio Horizontina e do CAIC estariam saindo mais cedo por falta de alimentação. Outra mãe, do Colégio Odete Salma Medauar, afirmou que turmas vinham sendo liberadas antes do horário previsto, com prejuízo à rotina das famílias e ao aprendizado das crianças. (Ilhéus Eventos)
Ou seja: de um lado, contrato de milhões. Do outro, pai e mãe denunciando criança saindo mais cedo por falta de merenda.
A conta nunca fechou.
E não foi por falta de alerta.
Em fevereiro de 2025, o Novas Notícias já havia levantado a pergunta que hoje ganha outro peso: como um contrato de merenda que antes girava em torno de R$ 4,5 milhões saltou para R$ 15,5 milhões na nova gestão? Na época, a matéria questionou o valor considerado exorbitante, a contratação sem licitação, a falta de detalhamento dos itens e as circunstâncias envolvendo a empresa vencedora. (Novas Noticias)
Naquele momento, tentaram tratar os questionamentos como exagero. Hoje, a Polícia Federal fala em suspeita de direcionamento, conluio entre empresas e sobrepreço. A pergunta que antes parecia incômoda agora aparece no centro de uma operação federal.
Também não se pode apagar o papel dos vereadores que cobraram, fiscalizaram e levaram o tema aos órgãos de controle. O vereador Vinícius Alcântara apresentou denúncias sobre o contrato da merenda, apontando exemplos de produtos que, segundo ele, estariam acima dos preços praticados no mercado, como macarrão e biscoito. Ele também informou ter levado o caso à Polícia Federal para investigação. (Novas Notícias)
O caso chegou também ao Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia. Reportagem do BNews mostrou que denúncias envolvendo o contrato milionário motivaram prazo para que a gestão Valderico Júnior prestasse esclarecimentos ao TCM. A publicação também citou suspeitas sobre troca de unidades de medida, como itens contratados por quilo e registrados em documentos de entrega como unidade, o que poderia inflar valores. (Bnews)
Além disso, diante da crise no abastecimento da merenda escolar, o vereador Maurício Galvão e a vereadora Enilda Mendonça formalizaram denúncia conjunta ao Ministério Público da Bahia, ao Tribunal de Contas e à Vara da Infância e Juventude. Segundo publicação do Ilhéus 24h, a medida foi tomada após tentativas de obter informações e soluções junto à Prefeitura, sem respostas sobre a ausência de alimentos nas escolas. (ILHÉUS 24H :: Porque a notícia não para.)
Portanto, não foi uma voz isolada. Foram pais de alunos, vereadores, veículos de comunicação e órgãos de controle apontando sinais de alerta. A diferença é que agora o caso deixou o campo da denúncia pública e entrou no campo da investigação federal.
Após a deflagração da operação, a Prefeitura tentou sustentar que a denúncia teria “cunho político”. Mas a resposta da gestão Valderico Júnior não elimina a gravidade do caso.
Política não assina mandado.
Política não é Polícia Federal.
Política não é CGU.
Política não é parecer do Ministério Público.
Política não autoriza busca e apreensão.
Nota pública não apaga operação federal.
Valderico Júnior chegou ao poder vendendo a imagem de renovação. Mas a gestão já acumula desgaste em várias áreas: ruas esburacadas, alagamentos, distritos reclamando abandono, lixo espalhado, ônibus criticados pela população, trânsito caótico, indústria da multa e agora uma investigação federal sobre a merenda escolar.
E aqui não se trata de condenar ninguém antes da Justiça. Os investigados têm direito de defesa. A Prefeitura tem direito de apresentar documentos. As empresas citadas têm direito ao contraditório. Mas a população também tem direito de perguntar, cobrar e exigir explicações.
Porque merenda escolar não é favor. É obrigação.
Criança não tem lobby. Mãe de aluno não tem gabinete. Estudante da rede pública não tem marqueteiro. Mas tem direito à alimentação, à aula completa e ao respeito com o dinheiro público.
Segundo a PF, os investigados poderão responder pelos crimes de contratação direta ilegal, frustração do caráter competitivo do processo licitatório, associação criminosa e corrupção passiva e ativa, caso as suspeitas sejam confirmadas. (Serviços e Informações do Brasil)
A gestão pode tentar transformar tudo em disputa política. Pode tentar apontar o dedo para quem denunciou. Pode tentar posar de vítima. Mas a verdade é simples: quem administra dinheiro público precisa prestar contas. Ainda mais quando o assunto é a comida das crianças.
A pergunta que fica é direta:
Se o contrato era de R$ 15,5 milhões, por que havia denúncia de falta de merenda?
Se a compra era em grande escala, por que a PF aponta itens acima do preço de varejo?
Se estava tudo correto, por que foram necessários 14 mandados de busca e apreensão?
E se pais, vereadores e veículos de comunicação estavam alertando há meses, por que a gestão preferiu atacar a cobrança em vez de entregar explicações convincentes?
Ilhéus precisa saber.
E mais do que saber, precisa lembrar.
Porque quando a merenda vira caso de Polícia Federal, silêncio também é escolha. E o lado certo, neste caso, é o lado das crianças, das famílias e do dinheiro público.



