BAHIA

O governador que não esqueceu a sala de aula

Ao destinar parte dos precatórios do Fundef ao magistério, Jerônimo Rodrigues devolveu, em forma de política pública, aquilo que aprendeu como professor.

Todo professor guarda uma memória que não cabe no contracheque. A do aluno que chegava sem merenda. A do giz que acabava antes do conteúdo. A das noites de domingo corrigindo provas na mesa da cozinha, com o café esfriando ao lado. A do salário que nunca alcançou o tamanho da responsabilidade. Quem nunca esteve diante de uma turma dificilmente entende o peso dessas coisas. Jerônimo Rodrigues entende, porque também já esteve ali.

Antes das secretarias, antes do Palácio de Ondina, ele deu aula. Talvez seja por isso que o abono extraordinário destinado aos profissionais da educação básica da rede estadual carregue um significado que vai muito além do administrativo. Mais do que um governo cumprindo uma obrigação com uma categoria, é alguém que conheceu a profissão por dentro olhando para os seus pares e dizendo, na linguagem do Estado, que não os esqueceu.

A medida tem números, e eles importam. A lei sancionada reserva um quinto dos recursos recuperados do Fundef para um abono de natureza indenizatória, proporcional à carga horária, que deve alcançar mais de 80 mil profissionais, entre ativos, aposentados, efetivos e contratados, a partir do dia 9 de junho. São, em média, cerca de R$ 721 para quem cumpre vinte horas semanais e o dobro para quem dobra a jornada. No mesmo dia será pago também o abono regular, voltado a quem esteve em sala entre 1998 e 2006, anos em que a União deixou de repassar à Bahia o que devia e em que a escola pública aprendeu, à força, a fazer muito com quase nada.

É preciso dizer com clareza o que esse dinheiro representa. O precatório do Fundef não é favor, é reparação. Foi recurso que faltou às escolas baianas durante anos, enquanto os professores cobriam a ausência do poder público com o próprio empenho. Transformar parte dessa recuperação em renda direta para quem ensinou, em vez de dispersá-la em rubricas que nunca chegam à sala de aula, revela o lugar que a educação ocupa nesse governo. O que faltou à educação está voltando, ainda que em parte, para as mãos de quem a sustentou quando faltava tudo.

Aqui a biografia do governador encontra a vida de milhares de trabalhadores. Quem já conduziu uma turma sabe o que não aparece em relatório nenhum: a aula que continua em casa, no planejamento da semana seguinte; a preocupação com o aluno que parou de aparecer; o dinheiro do próprio bolso gasto em cartolina e lápis de cor. Por isso talvez tenha importado tanto reconhecer não só o professor regente, mas também o coordenador pedagógico, o diretor e o secretário escolar, gente que faz a escola abrir a porta todos os dias e quase nunca é lembrada quando se fala em educação.

Seria desonesto fingir que um abono resolve a educação pública. Não resolve, e ninguém de boa-fé dirá que resolve. Carreira digna, formação continuada e investimento permanente seguem sendo a tarefa de fundo, a que nenhum pagamento isolado substitui. Mas existe um tipo de decisão cujo valor não se mede apenas em reais: a que comunica, sem rodeios, quem o governo escolheu colocar no centro. Desta vez, no centro está o professor.

Num país em que a educação costuma ocupar o discurso e perder o orçamento, a Bahia fez o caminho inverso. Pegou uma vitória judicial histórica e a transformou em algo palpável na conta de quem dá aula no interior, na periferia, no povoado onde o ônibus escolar é a única linha que passa. Recuperou o que pertencia ao estado, fortaleceu a renda de quem ensina e lembrou que escola pública não é gasto: é o investimento mais barato que um governo pode fazer no futuro de um povo.

No fim, o que permanece não é o valor que cairá na conta dos beneficiários. Os números cumprem seu papel e passam. Permanece o sentido de uma decisão tomada por quem conhece, de dentro, a realidade de quem será por ela alcançado.

Há governantes que chegam ao poder e passam a ler o serviço público pela frieza dos relatórios. Há outros que nunca soltam a memória do lugar de onde vieram. Jerônimo Rodrigues é dos segundos. O professor que um dia entrou em sala com o diário sob o braço e a tarefa de ensinar não desapareceu no governador que hoje sanciona leis e administra um orçamento de bilhões. Não foi a política se lembrando do professor por conveniência. Foi um professor que virou governador e não deixou de ser professor.

Talvez resida aí o significado mais fundo da medida. Não na cifra do benefício, mas no que ela anuncia: que a educação não ocupa um capítulo do programa de governo, e sim um lugar na própria biografia de quem governa.

Que a valorização do magistério siga como política permanente, e não como gesto de ocasião. Mas que se reconheça o que este instante guarda de raro. A Bahia assiste a um governador que, mesmo na mais alta cadeira do Estado, não esqueceu a sala de aula.

Por Adv Jerbson Moraes

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