Saúde auditada, educação sob a Polícia Federal: a gestão de Ilhéus precisa parar de fugir das perguntas
A Auditoria nº 5166 do SUS levou o Ministério Público a acompanhar a Secretaria de Saúde. A Operação Merenda Digna apura suspeita de desvio em contrato de R$ 15,5 milhões na educação. No meio de tudo, o que a Prefeitura de Valderico Júnior oferece à cidade é silêncio.

Há um padrão se desenhando em Ilhéus, e ele não é bom. Em poucas semanas, as duas áreas que mais consomem dinheiro público e mais mexem com a vida das pessoas, a saúde e a educação, foram parar ao mesmo tempo debaixo da lupa dos órgãos de controle.
Na saúde, a 8ª Promotoria de Justiça abriu procedimento para acompanhar a Secretaria Municipal depois que a Auditoria nº 5166 do SUS apontou inconformidades na rede. Na educação, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação Merenda Digna, que investiga suspeita de desvio em um contrato de merenda escolar de cerca de R$ 15,5 milhões.
Duas frentes abertas, dois conjuntos de documentos ainda não explicados publicamente, e uma cidade inteira no escuro.
Diante disso, a gestão do prefeito Valderico Júnior, que tanto gosta de estampar a palavra transparência em seus comunicados, escolheu o pior caminho possível: o silêncio. E silêncio, quando o assunto é dinheiro público, nunca ajuda. Alimenta desconfiança e aumenta a obrigação de explicar.
Comecemos pela saúde, porque aqui a cobrança tem nome e sobrenome.
A secretária Sonilda Mello é enfermeira, sanitarista e, que ninguém esqueça, auditora de formação. Não existe em Ilhéus quem saiba melhor do que ela o que significa um relatório de auditoria do SUS e o peso de um procedimento aberto pelo Ministério Público.
Justamente por isso, dela não se aceita evasiva. A pergunta é simples e direta: o que diz, exatamente, a Auditoria nº 5166? Quais inconformidades foram encontradas, em que unidades, com que gravidade, e que risco representam para quem depende do sistema público de saúde?
Quem passou a vida auditando os outros não pode, agora que está do outro lado do balcão, limitar-se a invocar sigilo sem oferecer à população uma explicação mínima sobre o caso.
Se as falhas forem pequenas, de papelada e de rotina, bastaria explicar o conteúdo do relatório para reduzir a desconfiança. Se forem graves, a população tem o direito de saber e de exigir reparo. Em qualquer cenário, a resposta precisa ser transparência.
Quem se cala diante de uma auditoria não protege a credibilidade da gestão. Apenas aumenta a sombra sobre o problema.
E enquanto a saúde empurra a explicação com a barriga, a educação já entrou num capítulo muito mais grave.
Segundo a investigação, iniciada ainda em 2025, vários itens da merenda escolar teriam sido comprados por preços bem acima dos praticados no varejo, com suspeita de direcionamento da licitação e de conluio entre as empresas.
O sobrepreço estimado já passa de R$ 1,7 milhão, mais que o dobro da verba federal repassada ao município no primeiro semestre. Para cumprir os 14 mandados de busca e apreensão, a Polícia Federal teve a chancela da Justiça de Ilhéus e a manifestação favorável do próprio Ministério Público estadual.
Os investigados podem responder, caso as suspeitas sejam confirmadas, por crimes que vão da fraude à licitação à associação criminosa e à corrupção. Procurada, a Prefeitura não se manifestou.
É preciso ser justo, e a justiça aqui também é uma forma de força: nada disso é condenação. São suspeitas, e todo investigado tem direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
Mas é exatamente a soma que torna o quadro insustentável. Quando os dois carros-chefes de uma prefeitura aparecem simultaneamente sob auditoria do SUS, operação da Polícia Federal e acompanhamento do Ministério Público, o problema deixa de ser de uma secretaria. Passa a ser da palavra de uma gestão inteira.
E é aqui que mora a questão de fundo.
Credibilidade, na vida pública, é o bem mais caro e o mais frágil. Leva anos para se construir e poucas semanas para virar pó.
Em Ilhéus, a conta começou a não fechar faz tempo. A cada relatório que permanece sem explicação pública, a cada operação deflagrada, a cada pergunta respondida com nota de assessoria, evapora um pouco mais da confiança de quem votou acreditando em algo diferente.
O cidadão ilheense não é ingênuo, e está cansado de descobrir pela imprensa o que deveria saber pela própria Prefeitura.
Por isso a única saída honrosa para esta administração não é o silêncio nem o discurso pronto. É a prestação de contas, na cara e na coragem.
Sonilda Mello precisa vir a público explicar, com os papéis na mesa, o conteúdo do Relatório nº 5166. A Secretaria de Educação precisa dizer, sem rodeios, o que tem a responder sobre os contratos da merenda. E o prefeito Valderico Júnior precisa entender, de uma vez, que governar uma cidade que paga por tudo isso com o próprio bolso exige muito mais do que inauguração, foto e legenda em rede social.
O povo de Ilhéus não está pedindo favor. Está cobrando direito.
Enquanto esses documentos seguirem sem explicação pública, qualquer comunicado oficial corre o risco de soar como tentativa de ganhar tempo. E o tempo, neste caso, não trabalha a favor de quem governa.
Fica então a pergunta, agora endereçada com todas as letras:
Secretária Sonilda Mello, prefeito Valderico Júnior, o que, afinal, dizem esses documentos?
Ilhéus está esperando.
E desta vez não vai aceitar o silêncio como resposta.



