ILHÉUS

Salles e Magalhães puxam para si o aeroporto de Ilhéus

Reunião na PGJ-BA expõe articulação rara: dois parlamentares da base de Jerônimo Rodrigues e de Lula assumem, publicamente, a pauta que sempre foi órfã

A reunião desta segunda-feira na Procuradoria-Geral de Justiça da Bahia não resolveu o problema do aeroporto de Ilhéus. Não havia como resolver em três horas o que se arrasta há mais de uma década. Mas resolveu coisa mais difícil: definiu, em ato público, quem pretende carregar essa pauta dali em diante. E quem decidiu assumi-la ajuda a explicar por que, desta vez, a pauta pode avançar.

O Jorge Amado entrou, faz tempo, na categoria das inconveniências que o sul da Bahia aprendeu a administrar. Cancela porque chove. Arremete porque o vento mudou. Desvia para Salvador, Porto Seguro, Vitória da Conquista. Quem voa para Ilhéus a negócios ou a lazer já incorporou a possibilidade de não chegar. Foram tantos episódios que a região acabou tratando a instabilidade como se fosse característica do clima. Pela primeira vez em muitos anos, a naturalização desse problema parece ter sido politicamente interrompida.

A articulação foi conduzida pelo deputado estadual Eduardo Salles, presidente da Comissão de Infraestrutura, Desenvolvimento Econômico e Turismo da ALBA e responsável pela convocação do encontro, e pelo deputado federal Paulo Magalhães, em nome da Câmara dos Deputados. Sentaram-se à mesa, com eles, o prefeito Valderico Júnior, o vereador Paulo Carqueija, o presidente da AMURC, Elder Fontes, e representantes da ANAC, DECEA, Infraero, Aeronáutica, Ministério dos Portos e Aeroportos, Ministérios Públicos Estadual e Federal, Secretaria Estadual de Turismo, SEINFRA, SOCICAM e entidades regionais do turismo.

A composição da mesa já entrega o diagnóstico. Quando um problema só se enfrenta com a presença simultânea de União, Estado, municípios, reguladores aéreos, concessionária e dois Ministérios Públicos, é porque o tema deixou há muito de ser estritamente técnico. É estrutural. E o que é estrutural, no Brasil, é necessariamente político.

O Jorge Amado é hoje a principal porta de entrada aérea da Costa do Cacau e um dos terminais regionais mais movimentados do Nordeste interior. Sua instabilidade não atinge apenas o passageiro que ficou esperando. Atinge hotelaria, comércio, eventos, mercado imobiliário, logística. Quando um voo arremete e a história vai parar nas redes sociais, há dano reputacional silencioso sobre a região inteira. Quando uma aeronave é desviada para outro estado, há um turista que pensa duas vezes antes da próxima reserva. E o que de fato preocupa não é o passageiro que reclama: é o investidor que recalcula.

O que a reunião revela vai além da pauta aeroportuária. O eixo da articulação é, antes de tudo, parlamentar. À frente, dois deputados que hoje pesam no tabuleiro: Eduardo Salles, estadual pelo Partido Verde, e Paulo Magalhães, federal pelo Partido Social Democrático. Ambos compõem a base de Jerônimo Rodrigues na Bahia e de Lula em Brasília. Esse alinhamento é o que torna o gesto desta segunda-feira diferente de tantos outros que não saíram do papel.

Por anos, o aeroporto de Ilhéus foi pauta órfã. Passava de mão em mão, sem padrinho institucional, sem responsável claro, sem acesso garantido a quem decide em Brasília e em Salvador. Isso muda agora.

Eduardo Salles migrou ao Partido Verde em abril, depois de mais de duas décadas em outra legenda. Escolheu como sua primeira pauta de visibilidade na nova filiação justamente uma articulação que conversa diretamente com o Ministério dos Portos e Aeroportos. Paulo Magalhães está em seu sétimo mandato federal consecutivo e é quadro consolidado do PSD baiano, sigla que sustenta Jerônimo no Centro Administrativo e Lula em Brasília. Ter os dois na mesma mesa é, na prática, abrir simultaneamente os dois telefones que sempre ficaram fora do alcance da pauta.

A leitura é simples. Quem hoje tem condições objetivas de tirar o aeroporto de Ilhéus da gaveta, dentro do atual governo, são exatamente os parlamentares que se reuniram em Salvador. Não é coalizão improvisada. É deputado estadual e deputado federal, no mesmo eixo político, decidindo em ato público que essa pauta agora tem dono.

Há também o calendário. Faltam cinco meses para a eleição geral, a janela partidária acaba de fechar, as chapas estão em consolidação. Nenhuma reunião como a desta segunda-feira acontece nesse momento sem cálculo. O campo governista decidiu não chegar a outubro sem ter colocado sua assinatura em uma das principais cobranças do sul da Bahia. E essa, antes de qualquer outra coisa, é uma boa notícia para a região.

Há quem torça o nariz para essa leitura. Não deveria. Convergência política em torno de uma pauta técnica não é defeito do processo democrático; é uma das poucas maneiras pelas quais nosso sistema institucional se move. Interesse político divergente de necessidade técnica produz paralisia. Interesse político alinhado a necessidade técnica produz obra. Em uma pauta que envolve União, Estado, regulador federal e concessionária, ter dois deputados da base como articuladores não é fragilidade. É a única chance real.

A leitura política também ajuda a entender o desenho do encontro. Aviação civil, controle de tráfego aéreo, normas operacionais e aproximação por instrumentos são competências da União. Entorno aeroportuário, infraestrutura urbana e articulação regional dependem do Estado e do município. Sem alinhamento simultâneo entre os três níveis, qualquer plano empaca em alguma engrenagem burocrática. A reunião desta segunda-feira parece ter sido desenhada exatamente para evitar isso, colocando à mesma mesa parlamentares cujos partidos têm assento garantido na base política da União e do Estado.

Soma-se a isso o pano de fundo técnico. No último ano, ganhou corpo no sul da Bahia o debate sobre a implantação de procedimentos de aproximação por instrumentos em Ilhéus, particularmente a tecnologia RNP, que, aplicada em outros aeroportos brasileiros, permitiu pousos seguros em condições meteorológicas antes proibitivas. Empresários, parlamentares e especialistas passaram a cobrar mais do que cartas de aproximação pontuais: cobram estabilidade operacional sustentada.

E aqui está o gargalo real. O problema, em Ilhéus, nunca foi tanto a ausência de cartas de aproximação. Foi a distância entre o que existe no papel e o que acontece na pista. Avanços regulatórios isolados produzem, no máximo, possibilidade — e possibilidade precisa ser convertida em prática pela ação coordenada de companhias aéreas, concessionária, controladores e ANAC. É esse o nó que a reunião começa a desatar.

Durante anos, o Jorge Amado foi tratado de forma fragmentada. Hora a chuva, hora a serra, hora o equipamento que faltava. Essa explicação que sempre apontava para fora — para a natureza, para a topografia, para a falha alheia — serviu para que o problema continuasse sem dono. E problema sem dono, na máquina pública brasileira, é problema que ninguém resolve.

Surge agora a possibilidade de um centro político de coordenação. Não um comitê para foto, mas uma frente capaz de cobrar prazos, definir responsabilidades e impedir que cada órgão volte a se refugiar em sua competência específica para empurrar a solução com a barriga. Será o bastante? Difícil cravar. Frentes institucionais no Brasil costumam produzir bons protocolos e finais discretos. Mas a desta segunda-feira tem um diferencial concreto: os dois deputados que assumiram publicamente a iniciativa têm acesso direto às engrenagens que precisam se mover. Está tudo, agora, no telefone de quem se comprometeu.

Talvez seja esse o ponto mais relevante do encontro. Por anos, o sul da Bahia discutiu o aeroporto como se ele fosse problema isolado, descolado do tabuleiro político que o cerca. Hoje, com Salles e Magalhães assumindo publicamente a pauta como dois parlamentares plantados na base de Jerônimo Rodrigues e de Lula, o tema finalmente encontrou quem aceite responder por ele. No Brasil, poucas coisas avançam sem coordenação política. O aeroporto de Ilhéus talvez tenha encontrado, nesta segunda-feira, o primeiro arranjo institucional capaz de transformar uma reclamação histórica em prioridade real de governo.

 

Jerbson Moraes

Advogado e colunista. Escreve às segundas para Manejo Notícias.

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