BAHIA

ACM Neto e a armadilha do verbo

Ao prometer “humilhar” o governador, o ex-prefeito de Salvador deslocou o debate das estatísticas para o comportamento e reabriu o roteiro que decidiu a eleição de 2022

Ao prometer “humilhar” o governador, o ex-prefeito de Salvador deslocou o debate das estatísticas para o comportamento e reabriu o roteiro que decidiu a eleição de 2022

Por Jerbson Moraes

A promessa de ACM Neto de “humilhar” o governador Jerônimo Rodrigues começou a envelhecer poucas horas depois de pronunciada. A frase, dita em evento da Fundação Índigo enquanto o ex-prefeito comparava os indicadores de segurança pública da Bahia aos de Goiás, diz menos sobre o governador do que sobre a estratégia de quem a pronunciou.

Campanha eleitoral é, antes de qualquer coisa, um exercício de seleção de palavras. O ex-prefeito poderia ter anunciado que pretende superar o adversário no debate de resultados, ou demonstrar que outros estados encontraram soluções mais eficientes para problemas que a Bahia ainda não equacionou. Tudo isso caberia no repertório normal de uma oposição. Neto preferiu prometer uma humilhação. Ocorre que, quando um candidato anuncia que vai humilhar o governador usando os indicadores do estado que esse governador administra, uma pergunta se impõe de imediato: ao fim do exercício, quem terá sido humilhado, o gestor ou os mais de 14 milhões de baianos retratados naqueles números?

A régua que só mede de um lado

A comparação proposta pelo ex-prefeito tem geometria variável. Ele aponta Goiás quando fala de segurança e recorre a São Paulo no capítulo da saúde, mas a régua encolhe no ponto em que os números mudariam de sinal. Não há uma palavra sobre transição energética, terreno em que Goiás e São Paulo é que teriam algo a aprender com a Bahia. Segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, o estado respondeu por cerca de 37% de toda a geração eólica do país em 2025, na liderança nacional do setor, com 381 usinas em operação, potência outorgada de 11,8 gigawatts, investimentos acumulados da ordem de R$ 77 bilhões e aproximadamente 118 mil empregos ao longo da cadeia produtiva.

O mesmo silêncio recai sobre o turismo, área em que a Bahia se consolidou como a principal porta de entrada de visitantes estrangeiros do Nordeste, e sobre a posição do estado como maior economia da região. Nada disso anula os problemas reais. A violência mata, a saúde pública opera sob pressão permanente e a pobreza ainda alcança milhões de pessoas, e nenhum desses dados desaparece porque os ventos do oeste baiano giram turbinas. A questão é outra: se a lógica comparativa serve para expor fragilidades, deveria servir igualmente para registrar conquistas. Quando só mede um dos lados, a comparação deixa de ser diagnóstico e vira argumento de campanha.

O precedente de 2022

A história recente da Bahia ajuda a medir o tamanho do risco que o ex-prefeito assumiu. Em 2022, ACM Neto liderou praticamente todas as pesquisas de intenção de voto ao longo da campanha, e parte delas projetava vitória ainda no primeiro turno. As urnas inverteram o roteiro: Jerônimo Rodrigues, ex-secretário estadual da Educação e até então pouco conhecido do grande público, terminou o primeiro turno à frente, com 49,45% dos votos válidos contra 40,8% do ex-prefeito, a menos de um ponto de liquidar a disputa de saída. No segundo turno, confirmou a vitória e foi o candidato mais votado em 364 dos 417 municípios baianos. O mapa fala por si: o interior, onde mora a maior parte do eleitorado, escolheu o nome que as pesquisas davam como azarão.

O campo governista percebeu a oportunidade em questão de horas. O senador Jaques Wagner enxergou na fala expressão de “autoritarismo” e “coronelismo”; o ministro Rui Costa, uma arrogância que a Bahia não merece. Houve quem recorresse ao Evangelho, caso do deputado estadual Angelo Almeida, para quem os humilhados serão exaltados. Coube ao secretário Adolpho Loyola a síntese que deve acompanhar Neto até outubro: “quem fala em humilhar não quer governar, quer se vingar”.

A palavra e o personagem

A política tem uma ironia recorrente. Muitas vezes, a frase destinada a definir o adversário acaba definindo quem a pronunciou. Quando ACM Neto escolheu o verbo “humilhar”, pretendia enquadrar Jerônimo Rodrigues como símbolo das deficiências da Bahia. O resultado imediato foi outro. O debate deixou de ser sobre estatísticas e passou a ser sobre comportamento. A oposição queria discutir números; a campanha governista ganhou a oportunidade de discutir valores.

E isso está longe de ser um detalhe menor. Em 2022, Jerônimo Rodrigues venceu uma eleição que parecia improvável porque conseguiu converter uma disputa administrativa em uma disputa simbólica. Enquanto ACM Neto aparecia como favorito absoluto, Jerônimo construiu a imagem do professor do interior enfrentando uma estrutura política mais poderosa. O eleitorado conheceu esse roteiro e escolheu um lado.

Quatro anos depois, ao prometer “humilhar” o governador, o ex-prefeito corre o risco de recolocar em cena personagens muito parecidos com os daquela eleição. De um lado, quem fala em força. Do outro, quem pode reivindicar humildade.

Talvez por isso a frase tenha produzido tanto ruído. No fundo, ela abriu algo maior do que uma discussão sobre segurança pública ou saúde: abriu uma discussão sobre a forma como um candidato enxerga seus adversários, seus eleitores e o próprio estado que pretende governar. A partir de agora, toda vez que ACM Neto falar sobre a Bahia, haverá uma pergunta pairando sobre o debate: ele está apresentando soluções ou procurando uma humilhação?

Em política, raramente uma única palavra decide uma eleição. Mas não são poucas as vezes em que uma única palavra passa a simbolizar uma candidatura inteira

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